“Só existe um sucesso – ser capaz de viver à sua própria maneira.

Se você estiver comprometido com o sucesso, você o criará.

A vitória começa pelo princípio.

Nossos corpos são nossos jardins, nossas vontades são os jardineiros”.

William Shakespeare

 

Cristina (nome fictício) de 26 anos, foi atendida com história de ter tido um acidente automobilístico há 16 anos. Ela teve traumatismo de crânio, trauma do tórax, fratura na perna esquerda e escoriações generalizadas.

Ficou internada na UTI em estado de coma durante 33 dias, com trauma de crânio e diagnóstico de edema e contusão cerebral. Durante o período de coma ela travou uma verdadeira batalha entre a vida e a morte. 

Ao sair de alta da UTI, ficou mais 30 dias internada em uma unidade intermediária e, posteriormente, no quarto, local onde a paciente apresentava um estado de confusão mental, com desorientação temporo-espacial e períodos de sonolência intercalados com agitação psicomotora.

Apresentava paresia (fraqueza) do hemicorpo à direita, amnésia, dificuldade para falar e compreender as palavras. Em alguns momentos, reconhecia os familiares e amigos, em outros, não. Muitas vezes, olhava para longe e sua mente parecia alienada deste mundo. O que será que lhe passava na mente?  

O Retorno

Dezesseis anos após o acidente, a mãe de Cristina relatou esta história. A paciente cabisbaixa, tímida, envergonhada, pouco falava. A mãe disse que o médico que a acompanhou na época, prognosticou que a mesma ficaria com sequelas sérias e irreversíveis, sendo que não teria vida normal, não poderia estudar, trabalhar, casar e ter filhos, enfim viver.

Com este prognóstico, a paciente e a família (pessoas simples) acreditaram que o futuro estava selado. Ela nunca mais voltou para a escola, vivia em casa reclusa, com uma sentença de vida a cumprir, enquanto o tempo passava. A mãe deixou o trabalho para cuidar dela. Cristina foi impedida de fazer tudo o que as crianças e adolescentes de sua idade faziam, porque estava “condenada”. 

Após avaliação do seu caso e depois de ser submetida à avaliação neurológica, neuropsicológica e a diversos exames, foram constatados alguns sinais de encefalomalácia em área sem eloquência.

Silhouette of woman praying over beautiful sunrise background

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Ela foi estimulada a fazer uma roda de sonhos e orientada a enumerar quais os objetivos que  almejaria alcançar, se tudo fosse possível.

Após a execução deste projeto de vida, que foi elaborado com ajuda da mãe, Cristina foi estimulada a colocá-lo em prática.

Mudança de vida

Um ano depois, no retorno, sua vida tinha mudado completamente. Voltou a estudar, fazer aula, academia, dançar, fazer novas amizades, ouvir música e o mais importante: voltou a viver. Tinha vários projetos como se formar, trabalhar, casar e ter filhos. 

A análise do caso da Cristina pode mostrar como as pessoas, por vários motivos, aceitam e assumem crenças limitantes em suas vidas.

Quantas vezes Cristina ouviu e pensou que não podia, não tinha, não sabia, não merecia, não era capaz e se via condenada a passar o resto de sua vida reclusa. Quantos milhares de “nãos” ela deve ter ouvido, pensado, imaginado, acreditado e aceito. 

Reabilitação

As pessoas, mesmo em situações desafiantes com lesões neurológicas, podem ser reabilitadas dentro de certos limites, devido à flexibilidade do cérebro, chamada de plasticidade.

Os neurônios têm a capacidade de estabelecer conexões entre si através das sinapses, que são formadas após estímulos internos ou externos.

Estas ativações das conexões sinápticas são responsáveis por estimular neurônios adormecidos ou inativos.

A estimulação neuronal pode potencializar e proporcionar aumento e realocação de novas funções e, com isto, ao facilitar aprendizado, permite reescrever e redesenhar novas habilidades, novos comportamentos e inclusive modelar uma nova personalidade. 

Por isso pessoas vítimas de lesões cerebrais devido a doenças ou acidentes graves, inclusive com perda da massa encefálica, com paralisias, distúrbio visual, da audição e da fala, têm a oportunidade, quando submetidas aos estímulos apropriados, de se recuperar gradativamente e, muitas vezes, chegar com pouca ou sem nenhuma sequela. 

Em qualquer situação ou desafio, por maior que seja, é preciso ter fé e acreditar que há sempre esperança e tempo para recomeçar.

Tempo para acreditar em si mesmo, construir uma autoestima proativa, ter coragem de enfrentar os medos, os desafios, ter motivação e força de vontade. Enfim enquanto tiver vida, sempre haverá tempo para um novo recomeço.

  

Eduardo Carlos da Silva
Neurocirurgião e Coach – CRM: 36865